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Wicked: espetáculo, identidade e a reconstrução de vilões no cinema contemporâneo

Por gustavo.santos
30 de janeiro, 2026

Durante décadas, o universo de O Mágico de Oz apresentou uma divisão clara entre bem e mal. De um lado, a doce e luminosa Glinda. Do outro, a temida Bruxa Má do Oeste, uma figura associada à maldade, à feiura e à crueldade. Wicked surge justamente para questionar essa lógica simples, oferecendo uma releitura que transforma um ícone vilanesco em uma das personagens mais complexas e emocionantes da cultura pop recente.

A adaptação cinematográfica de Wicked não é apenas a transposição de um musical de sucesso para as telas. Trata-se de uma obra que revisita conceitos como preconceito, poder, exclusão social e manipulação política, utilizando a fantasia como ferramenta narrativa para discutir temas profundamente humanos e atuais.

A origem de Wicked e sua importância cultural

Wicked nasceu como um romance de Gregory Maguire, que propôs recontar a história de Oz a partir da perspectiva da Bruxa Má do Oeste. A obra ganhou ainda mais força quando foi adaptada para os palcos da Broadway, tornando-se um dos musicais mais bem-sucedidos da história.

A versão cinematográfica carrega o peso desse legado cultural. Não se trata apenas de atender fãs do teatro musical, mas de apresentar essa narrativa a um público ainda maior, ampliando seu impacto emocional e simbólico.

Elphaba: a vilã que nunca foi vilã

No centro da narrativa está Elphaba, uma jovem marcada desde o nascimento por sua pele verde, característica que a transforma em alvo de rejeição imediata. Desde cedo, Elphaba aprende que ser diferente significa ser excluída, julgada e silenciada.

Wicked constrói sua protagonista como uma personagem profundamente sensível, inteligente e idealista. Seu conflito não nasce do desejo de poder, mas da frustração diante de injustiças sociais e da hipocrisia das autoridades de Oz. Ao longo da história, o público passa a compreender que a vilania atribuída a Elphaba é, na verdade, uma construção social.

Glinda e o privilégio como ferramenta narrativa

Glinda, inicialmente apresentada como fútil e superficial, representa o outro lado da moeda. Popular, admirada e socialmente aceita, ela transita com facilidade pelos espaços de poder. Sua trajetória, porém, não é isenta de conflitos.

Wicked utiliza Glinda para discutir o papel do privilégio e da omissão. Diferente de Elphaba, Glinda tem consciência das injustiças, mas frequentemente escolhe o caminho da conveniência. A amizade entre as duas é o coração emocional da história, marcada por afeto genuíno, inveja, frustração e escolhas difíceis.

Uma amizade construída em meio ao conflito

A relação entre Elphaba e Glinda foge do clichê da rivalidade feminina. Wicked constrói uma amizade complexa, imperfeita e profundamente humana. As duas personagens se influenciam, se confrontam e se transformam mutuamente.

Essa amizade funciona como metáfora para escolhas morais: enquanto Elphaba opta por enfrentar o sistema, mesmo pagando um preço alto, Glinda aprende a jogar conforme as regras, acreditando que pode mudar as coisas por dentro.

Oz como reflexo de estruturas autoritárias

O mundo de Oz, em Wicked, deixa de ser apenas um cenário mágico para se tornar um espaço político. O Mágico de Oz é retratado como uma figura que mantém o poder através da propaganda, da criação de inimigos e da manipulação da opinião pública.

A perseguição aos Animais falantes funciona como alegoria para regimes autoritários que utilizam o medo e a desinformação para controlar a população. Elphaba, ao se posicionar contra esse sistema, passa a ser rotulada como ameaça, reforçando a lógica de que questionar o poder estabelecido é, muitas vezes, tratado como crime.

A música como extensão emocional da narrativa

As canções de Wicked não são meros momentos de espetáculo. Elas funcionam como monólogos internos, permitindo que o público acesse emoções que os personagens não conseguem expressar em palavras comuns.

Músicas como “Defying Gravity” simbolizam a libertação de Elphaba, não apenas no sentido literal, mas emocional e ideológico. É o momento em que a personagem aceita sua condição de excluída e transforma isso em força.

Estética, figurino e simbolismo visual

Visualmente, Wicked aposta em contrastes fortes. Tons verdes, dourados e rosados não são apenas escolhas estéticas, mas representações simbólicas dos personagens e de seus mundos.

O figurino de Elphaba reforça sua marginalização, enquanto o de Glinda evidencia sua aceitação social. Ao longo da narrativa, essas diferenças visuais ajudam a contar a história sem a necessidade de explicações explícitas.

A desconstrução do conceito de bem e mal

Um dos maiores méritos de Wicked é desmontar a ideia de que o mundo se divide entre heróis e vilões. A obra mostra que o bem e o mal são frequentemente definidos por quem detém o poder de contar a história.

Ao oferecer contexto, Wicked transforma julgamentos rasos em reflexões profundas. O espectador é convidado a questionar quantas “Elphabas” foram rotuladas como vilãs apenas por não se encaixarem em padrões impostos.

O impacto emocional no público

Wicked não emociona apenas pelo espetáculo visual ou musical, mas pela identificação emocional. Muitos espectadores se veem em Elphaba, especialmente aqueles que já se sentiram excluídos, incompreendidos ou injustiçados.

Essa conexão emocional explica por que Wicked ultrapassa gerações e permanece relevante mesmo anos após sua criação.

A adaptação cinematográfica e as expectativas

A chegada de Wicked ao cinema carrega grandes expectativas, tanto de fãs antigos quanto de novos espectadores. O desafio da adaptação está em manter a essência da obra original, ao mesmo tempo em que explora as possibilidades visuais e narrativas do cinema.

A proposta do filme não é apenas reproduzir o musical, mas expandir seu alcance emocional e simbólico, tornando Oz um espaço ainda mais vivo e significativo.

Wicked e sua relevância no cenário atual

Em um mundo marcado por polarizações, discursos simplistas e julgamentos rápidos, Wicked surge como uma obra necessária. Sua mensagem sobre empatia, narrativa e poder dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre exclusão, cancelamento e construção de inimigos sociais.

A história reforça que compreender o outro exige disposição para ouvir, questionar e desconstruir versões oficiais.

Conclusão

Wicked é muito mais do que uma releitura de um clássico. É uma obra que utiliza fantasia, música e emoção para discutir temas profundamente reais. Ao humanizar uma vilã, o filme nos lembra que toda história possui múltiplas versões e que a verdade raramente é simples.

No fim, Wicked deixa uma reflexão poderosa: talvez o verdadeiro ato de coragem seja desafiar a narrativa que nos foi imposta e contar a própria história.

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