Succession

Succession e a corrosão do poder nas dinastias familiares

Por gustavo.santos
20 de janeiro, 2026

Succession rapidamente se consolidou como uma das séries mais impactantes da televisão contemporânea. Criada por Jesse Armstrong e exibida pela HBO, a produção vai muito além de uma simples disputa empresarial ou de um drama familiar de alto orçamento. Succession se aprofunda em um território mais incômodo: o da corrosão emocional, ética e psicológica causada pelo poder absoluto quando ele se mistura com relações familiares frágeis e mal resolvidas.

Ao acompanhar a família Roy e o império midiático Waystar Royco, a série constrói um retrato cruel, porém extremamente realista, das dinâmicas de poder nas grandes dinastias modernas. Não se trata apenas de quem herdará o comando da empresa, mas de como essa disputa destrói vínculos, molda personalidades e revela a incapacidade desses personagens de amar, confiar ou simplesmente existir fora da lógica da dominação.

A família Roy como microcosmo do capitalismo contemporâneo

A estrutura narrativa de Succession funciona como um espelho distorcido — porém reconhecível — do capitalismo atual. Logan Roy, o patriarca, representa o arquétipo do fundador que construiu tudo do zero, mas que se recusa a abrir mão do controle. Sua figura não é apenas autoritária; ela é estrategicamente desumanizada. Logan não vê seus filhos como herdeiros naturais, mas como peças substituíveis em um tabuleiro corporativo.

Cada um dos filhos carrega marcas profundas dessa criação baseada em humilhação, competição e validação condicional. Kendall, Roman, Shiv e Connor não disputam apenas um cargo: disputam a aprovação de um pai que nunca ofereceu afeto sem exigir algo em troca. A empresa, nesse sentido, deixa de ser um negócio e se transforma em uma extensão emocional do patriarca, onde amor, poder e reconhecimento se confundem de maneira tóxica.

Kendall Roy e o peso da sucessão como identidade

Kendall é, talvez, o personagem que melhor representa o impacto psicológico da sucessão forçada. Desde o início da série, ele é tratado como o “herdeiro natural”, mas nunca como alguém verdadeiramente digno do posto aos olhos de Logan. Essa ambiguidade cria um vazio identitário profundo: Kendall não sabe quem é fora da promessa de poder que sempre lhe foi feita e constantemente retirada.

Ao longo da série, sua trajetória é marcada por tentativas desesperadas de provar valor, tanto profissional quanto moralmente. No entanto, cada fracasso o empurra ainda mais para a autodestruição. Succession utiliza Kendall para mostrar como a sucessão, quando baseada apenas em expectativa e não em autonomia, pode destruir a saúde mental de um indivíduo. Ele não quer apenas liderar a empresa; ele quer justificar sua própria existência.

Shiv Roy e o conflito entre independência e herança

Shiv representa um conflito diferente, mas igualmente devastador. Inicialmente afastada da empresa, ela constrói uma carreira política própria, tentando se diferenciar do legado familiar. No entanto, à medida que Logan passa a enxergá-la como uma possível sucessora, Shiv se vê atraída para o mesmo jogo que consome seus irmãos.

O arco de Shiv é particularmente relevante por discutir gênero e poder. Apesar de sua inteligência e capacidade estratégica, ela enfrenta constantes desconfianças, tanto externas quanto internas. Succession expõe como, mesmo em estruturas modernas, o poder ainda é distribuído de forma desigual, e como mulheres precisam constantemente provar que merecem ocupar espaços que homens recebem como pressuposto.

Roman Roy e a infantilização como mecanismo de defesa

Roman é, à primeira vista, o alívio cômico da série, mas sua construção psicológica é uma das mais complexas. Seu humor ácido, comportamento provocador e aparente despreocupação escondem um profundo trauma emocional. Roman foi moldado para não ser levado a sério, e ele internalizou esse papel como forma de sobrevivência.

A relação de Roman com Logan é marcada por humilhações constantes, mas também por uma dependência emocional quase doentia. Succession utiliza Roman para discutir como o poder pode infantilizar indivíduos, impedindo seu amadurecimento emocional. Ele é incapaz de se relacionar de forma saudável, tanto profissional quanto pessoalmente, porque nunca foi tratado como alguém completo.

Connor Roy e a ilusão da irrelevância

Connor, o irmão mais velho, ocupa uma posição curiosa dentro da narrativa. Frequentemente tratado como irrelevante, ele vive à margem das disputas centrais pelo poder. No entanto, sua trajetória revela outro efeito corrosivo das dinâmicas familiares baseadas em dominação: o desligamento completo da realidade.

Connor constrói um universo próprio, sustentado por privilégios financeiros, mas emocionalmente vazio. Sua candidatura política absurda não é apenas uma piada narrativa, mas uma crítica direta à alienação das elites. Succession mostra que o poder não destrói apenas quem o busca obsessivamente, mas também aqueles que se tornam indiferentes a ele por nunca terem sido considerados parte do jogo.

Logan Roy: o patriarca como símbolo da tirania moderna

Logan Roy é o eixo em torno do qual toda a narrativa gira. Mais do que um personagem, ele funciona como um símbolo da tirania corporativa moderna. Logan construiu um império, mas o fez à custa de qualquer traço de empatia. Sua visão de mundo é binária: vencedores e perdedores, fortes e fracos.

O grande mérito de Succession é não transformar Logan em um vilão caricato. Ele é brutal, sim, mas também é coerente dentro da lógica que criou. Logan acredita genuinamente que o mundo funciona dessa maneira, e qualquer demonstração de fragilidade é, para ele, imperdoável. Essa mentalidade, quando aplicada à família, gera um ciclo contínuo de abuso emocional.

O poder como herança envenenada

Ao longo de suas temporadas, Succession deixa claro que o poder, quando herdado sem preparação emocional, se torna uma herança envenenada. Nenhum dos filhos está verdadeiramente apto a liderar, não por falta de competência técnica, mas por terem sido emocionalmente sabotados desde a infância.

A série desconstrói o mito da sucessão natural, mostrando que empresas familiares, quando baseadas apenas em laços sanguíneos, tendem a reproduzir conflitos internos que comprometem sua própria sobrevivência. Succession não fala apenas sobre uma família específica, mas sobre um modelo de poder que ainda domina grande parte do mundo corporativo.

A estética fria como extensão da narrativa

Visualmente, Succession reforça seu discurso de forma sutil, porém eficaz. Ambientes amplos, frios e impessoais dominam a mise-en-scène da série. Mesmo em momentos íntimos, os personagens parecem isolados dentro do quadro, refletindo a distância emocional que os separa.

A trilha sonora, marcada por elementos clássicos e contemporâneos, cria uma atmosfera de grandiosidade vazia. Tudo em Succession parece grande demais, caro demais e, paradoxalmente, humano de menos. Essa escolha estética não é acidental; ela reforça a ideia de que o poder, quando absoluto, esvazia tudo ao seu redor.

Succession como crítica social além da ficção

Embora centrada em uma família fictícia, Succession funciona como uma crítica direta às elites econômicas reais. A série dialoga com escândalos midiáticos, concentração de poder, manipulação da opinião pública e a fragilidade das instituições democráticas diante de grandes conglomerados.

Ao humanizar — sem romantizar — seus personagens, Succession obriga o espectador a encarar uma verdade desconfortável: muitas das decisões que afetam milhões de pessoas são tomadas por indivíduos emocionalmente quebrados, guiados por vaidade, medo e desejo de controle.

Conclusão: o preço invisível da sucessão

Succession não oferece respostas fáceis nem redenções grandiosas. Seu maior mérito está em mostrar que o poder, quando colocado acima das relações humanas, cobra um preço invisível, porém devastador. A série desmonta a fantasia da herança como privilégio absoluto e revela seu lado mais cruel: a perda da identidade, da empatia e da capacidade de amar.

Ao final, Succession não é apenas sobre quem assume o trono, mas sobre o que se perde no caminho até ele. É um retrato duro, sofisticado e extremamente atual das dinastias modernas e da falência emocional que frequentemente acompanha o poder absoluto.

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