Pobres Criaturas

Pobres Criaturas e a reinvenção do feminino no cinema contemporâneo

Por gustavo.santos
22 de janeiro, 2026

Pobres Criaturas se consolidou como um dos filmes mais comentados do cinema recente justamente por desafiar convenções narrativas, visuais e temáticas. Dirigido por Yorgos Lanthimos e baseado no romance de Alasdair Gray, o longa não se limita a contar uma história incomum: ele propõe uma nova forma de olhar para o corpo feminino, para a construção da identidade e para os limites impostos socialmente ao desejo e à autonomia.

Desde seus primeiros minutos, o filme deixa claro que não se trata de uma experiência tradicional. A estética peculiar, os enquadramentos não convencionais e o tom quase fabular criam um ambiente que convida o espectador a abandonar expectativas clássicas e se abrir para uma narrativa que mistura crítica social, humor ácido e desconstrução de arquétipos.

Bella Baxter como símbolo de reconstrução da identidade

A protagonista Bella Baxter é o eixo central da narrativa. Sua trajetória não é apresentada como um simples processo de amadurecimento, mas como uma reconstrução completa do que significa existir em um corpo feminino em uma sociedade que insiste em controlar, limitar e definir esse corpo.

O filme trabalha a ideia de descoberta de forma literal e simbólica. Bella aprende sobre o mundo sem os filtros morais impostos desde a infância, o que transforma sua visão de relações, prazer, poder e liberdade. Esse olhar “não domesticado” é o grande motor da crítica social do longa, expondo o quanto normas sociais são construções arbitrárias e, muitas vezes, opressivas.

Mais do que uma personagem, Bella funciona como um espelho distorcido da sociedade, refletindo comportamentos que normalmente são naturalizados, mas que se tornam estranhos quando observados de fora.

O corpo feminino como território político

Um dos aspectos mais discutidos de Pobres Criaturas é a forma como o filme aborda o corpo feminino. Diferente de representações tradicionais, o corpo de Bella não é erotizado para agradar um olhar externo, mas apresentado como um espaço de experimentação, aprendizado e autonomia.

O filme provoca desconforto justamente por retirar o controle narrativo que normalmente é exercido sobre personagens femininas. Bella decide, explora e vive sem pedir permissão, o que expõe a hipocrisia de uma sociedade que aceita a liberdade masculina, mas reage com choque quando essa mesma liberdade é reivindicada por uma mulher.

Essa abordagem faz de Pobres Criaturas um filme profundamente político, ainda que não didático. A crítica emerge da própria vivência da personagem, sem discursos explícitos ou explicações excessivas.

Estética como extensão da narrativa

A estética do filme não é apenas um elemento visual, mas parte essencial da narrativa. Os cenários estilizados, as cores saturadas e os enquadramentos distorcidos refletem o estado interno da protagonista e sua percepção do mundo.

À medida que Bella evolui, o filme também se transforma visualmente, acompanhando sua ampliação de consciência e experiência. Essa escolha estética reforça a ideia de que estamos acompanhando não apenas uma história, mas um processo de construção subjetiva.

Yorgos Lanthimos utiliza a linguagem cinematográfica para criar sensações, não apenas para contar fatos. O estranhamento visual não afasta o espectador, mas o envolve, convidando-o a sentir o mundo da mesma forma que a protagonista sente.

Relações de poder e masculinidade exposta

Outro ponto central de Pobres Criaturas é a forma como o filme retrata personagens masculinos. Em vez de vilões caricatos, vemos homens comuns, moldados por estruturas de poder que eles próprios raramente questionam.

As relações estabelecidas ao longo da narrativa expõem dinâmicas de controle, dependência emocional e necessidade de dominação. O filme não busca demonizar indivíduos, mas evidenciar como certos comportamentos são incentivados e normalizados culturalmente.

Ao colocar Bella em constante movimento e aprendizado, o longa revela o desconforto masculino diante de uma mulher que não se submete a papéis pré-definidos. Essa inversão de expectativa gera momentos de humor, tensão e reflexão.

Humor ácido como ferramenta de crítica

Apesar de abordar temas densos, Pobres Criaturas utiliza o humor como uma de suas principais ferramentas narrativas. Um humor estranho, desconcertante e, muitas vezes, incômodo. Esse riso não surge para aliviar a tensão, mas para amplificar o absurdo de certas normas sociais.

O humor funciona como um mecanismo de distanciamento crítico, permitindo que o espectador perceba o quão artificiais são muitas convenções que regem comportamento, moral e relações humanas.

Essa escolha torna o filme ainda mais provocativo, pois impede uma recepção passiva. O espectador é constantemente convidado a refletir sobre aquilo que está achando engraçado — e por quê.

Uma atuação que sustenta a complexidade do filme

A atuação de Emma Stone é um dos pilares do impacto de Pobres Criaturas. Sua entrega física, emocional e expressiva sustenta a proposta ousada do roteiro. Stone constrói uma personagem que evolui não apenas em discurso, mas em postura corporal, olhar e forma de se comunicar.

Essa transformação gradual é essencial para que o público acompanhe a jornada de Bella de forma orgânica. A atriz consegue equilibrar ingenuidade, curiosidade, força e vulnerabilidade sem cair em exageros ou simplificações.

A performance contribui para que o filme não se torne apenas uma experiência estética, mas também emocionalmente envolvente.

Pobres Criaturas e o cinema autoral no mainstream

Um dos maiores méritos de Pobres Criaturas é conseguir levar uma proposta claramente autoral para um público amplo. O filme não dilui suas ideias para se tornar mais acessível, nem abandona sua identidade estética para agradar expectativas comerciais.

Esse equilíbrio entre ousadia e alcance demonstra que ainda há espaço no cinema contemporâneo para narrativas que desafiam o espectador, questionam estruturas sociais e experimentam novas formas de contar histórias.

O sucesso e a repercussão do filme indicam uma mudança importante no consumo cultural, onde o público demonstra interesse por obras que oferecem mais do que entretenimento imediato.

Por que Pobres Criaturas é um filme necessário

Pobres Criaturas não é um filme fácil, confortável ou previsível — e é justamente por isso que ele se torna tão relevante. Em um momento em que discussões sobre identidade, gênero, autonomia e liberdade ganham cada vez mais espaço, o longa oferece uma reflexão potente sem recorrer a discursos simplistas.

A obra propõe que repensemos não apenas o papel da mulher na sociedade, mas também como construímos nossas próprias ideias de normalidade, moralidade e desejo. Ao fazer isso por meio de uma narrativa ousada e visualmente impactante, o filme se consolida como um marco do cinema contemporâneo.

Mais do que contar uma história, Pobres Criaturas provoca uma experiência — e convida o espectador a sair dela transformado.

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