Peaky Blinders

Peaky Blinders e a construção do anti-herói carismático

Por gustavo.santos
18 de janeiro, 2026

Peaky Blinders se consolidou como uma das séries mais marcantes da televisão contemporânea ao apresentar uma narrativa que mistura crime, política, drama familiar e estética cinematográfica. Ambientada na Inglaterra pós-Primeira Guerra Mundial, a série criada por Steven Knight acompanha a ascensão da família Shelby no submundo do crime, tendo em Thomas Shelby seu centro narrativo e emocional. O grande diferencial da produção não está apenas em sua ambientação estilizada ou trilha sonora moderna, mas na forma como constrói um anti-herói complexo, contraditório e profundamente carismático.

Ao longo das temporadas, Peaky Blinders se distancia da ideia tradicional de protagonistas moralmente corretos. Thomas Shelby é um personagem movido por ambição, trauma e inteligência estratégica, capaz de atos brutais e, ao mesmo tempo, de gestos de empatia. Essa ambiguidade moral é o que sustenta o fascínio do público e transforma a série em um estudo profundo sobre poder, identidade e sobrevivência em um mundo marcado pela violência e pela desigualdade.

Thomas Shelby e o novo arquétipo do protagonista

Thomas Shelby não é apresentado como um herói clássico, mas como um homem quebrado pelas experiências da guerra. Veterano traumatizado, ele carrega cicatrizes físicas e emocionais que influenciam diretamente suas decisões. A série deixa claro que sua frieza e seu pragmatismo não surgem do nada, mas são respostas a um mundo que exige dureza para sobreviver.

Diferente de protagonistas que buscam redenção, Thomas parece aceitar sua própria escuridão. Ele não tenta se justificar moralmente, nem pede perdão por suas ações. Essa honestidade brutal com quem ele é cria uma conexão inesperada com o espectador, que passa a compreender suas motivações mesmo quando discorda de seus métodos. Peaky Blinders constrói, assim, um anti-herói que não precisa ser “salvo”, apenas entendido.

A atuação de Cillian Murphy é fundamental para essa construção. Seu olhar contido, a postura rígida e os silêncios prolongados comunicam mais do que longos diálogos. Thomas Shelby fala pouco, mas pensa muito, e a série confia na inteligência do público para interpretar suas intenções.

O carisma como ferramenta de poder

Um dos aspectos mais interessantes de Peaky Blinders é mostrar como o carisma pode ser uma arma tão poderosa quanto a violência. Thomas Shelby raramente vence apenas pela força. Ele manipula, negocia, observa e espera o momento certo para agir. Seu domínio sobre os outros personagens se dá mais pela presença e pela estratégia do que pela intimidação explícita.

Esse carisma também se estende ao público. Mesmo quando Thomas toma decisões questionáveis, o espectador tende a acompanhá-lo, torcer por ele e justificar suas escolhas. A série entende esse mecanismo e o utiliza de forma consciente, criando situações em que o público é convidado a refletir sobre até onde vai sua empatia por personagens moralmente duvidosos.

Peaky Blinders não glorifica o crime de forma simplista, mas reconhece que o poder exerce fascínio. Ao mostrar o funcionamento das gangues, das alianças políticas e das negociações clandestinas, a série revela que o mundo retratado é regido por regras próprias, nas quais inteligência e controle emocional valem mais do que impulsividade.

A família como motor narrativo

Apesar de ser uma série sobre crime, Peaky Blinders é, acima de tudo, uma história sobre família. Os Shelby não são apenas parceiros de negócios, mas pessoas ligadas por laços afetivos complexos. Amor, lealdade, ressentimento e disputa por poder coexistem dentro da mesma estrutura familiar, tornando os conflitos ainda mais intensos.

Arthur Shelby representa o lado mais instável dessa dinâmica. Impulsivo e emocionalmente frágil, ele funciona como um contraste direto com Thomas. Sua dificuldade em lidar com a violência e com a culpa expõe o custo humano do estilo de vida criminoso. Já Polly Gray surge como a figura de equilíbrio, trazendo sensibilidade e pragmatismo, além de representar a força feminina em um ambiente dominado por homens.

Essas relações familiares impedem que a série se torne fria ou distante. Mesmo nos momentos mais violentos, Peaky Blinders mantém um núcleo emocional forte, lembrando constantemente que, por trás das decisões estratégicas, existem pessoas tentando sobreviver em um mundo hostil.

Estética, música e identidade

Outro elemento essencial para o sucesso da série é sua estética marcante. Peaky Blinders utiliza figurinos elegantes, fotografia sombria e enquadramentos precisos para criar uma identidade visual inconfundível. Essa estética não serve apenas como pano de fundo, mas como parte ativa da narrativa, reforçando a atmosfera de tensão e poder.

A trilha sonora, composta majoritariamente por músicas contemporâneas, cria um contraste proposital com o período histórico retratado. Esse recurso aproxima a série do público moderno e reforça a ideia de que os conflitos apresentados não pertencem apenas ao passado. Ambição, violência e disputa por poder continuam atuais, independentemente da época.

Essa combinação de elementos transforma Peaky Blinders em uma experiência sensorial completa, que vai além da história contada e se consolida como um produto cultural forte, influenciando moda, comportamento e até linguagem entre os fãs.

Violência como consequência, não espetáculo

Embora a violência esteja presente em praticamente todas as temporadas, Peaky Blinders evita tratá-la como espetáculo vazio. Cada ato violento carrega consequências narrativas e emocionais. Mortes não são esquecidas, traições deixam marcas e decisões impulsivas retornam para assombrar os personagens.

Essa abordagem reforça o tom trágico da série. À medida que os Shelby ascendem socialmente, também se afastam de qualquer possibilidade de paz. O poder conquistado vem acompanhado de paranoia, isolamento e perda de vínculos afetivos. Thomas Shelby, em especial, se torna cada vez mais solitário, cercado por aliados, mas distante emocionalmente de todos.

A série sugere, assim, que o sucesso dentro desse sistema é sempre incompleto. Não há vitória definitiva, apenas ciclos de conflito que se renovam constantemente.

O impacto cultural de Peaky Blinders

Peaky Blinders ultrapassou o status de série de sucesso para se tornar um fenômeno cultural. Seu protagonista virou referência estética, sua trilha sonora ganhou popularidade fora da série e suas frases se espalharam pelas redes sociais. Esse impacto não se deve apenas ao estilo, mas à profundidade da narrativa e à complexidade de seus personagens.

A série dialoga com o público contemporâneo ao abordar temas como masculinidade, trauma, ambição e identidade em um mundo instável. Thomas Shelby não é admirado por ser perfeito, mas por ser humano em suas contradições. Ele representa uma figura que luta contra o próprio passado enquanto tenta controlar o futuro, mesmo sabendo que isso pode custar tudo.

Ao construir um anti-herói tão memorável, Peaky Blinders reforça a tendência da televisão moderna de abandonar personagens maniqueístas e apostar em narrativas mais ambíguas e realistas. É justamente essa complexidade que mantém a série relevante mesmo após seu encerramento.

gustavo.santos

gustavo.santos

Autor

Compartilhar:

Artigos Relacionados

Newsletter Gratuita

Nunca mais perca uma novidade

Receba as últimas notícias, reviews exclusivos e lançamentos diretamente no seu email