Peaky Blinders e a construção do anti-herói carismático
Ao longo da história da televisão, o público se acostumou a acompanhar protagonistas que representavam valores positivos, justiça e moralidade. No entanto, com o passar dos anos, esse modelo começou a se transformar. Séries contemporâneas passaram a apostar em personagens moralmente ambíguos, cheios de falhas, contradições e decisões questionáveis. Nesse cenário, Peaky Blinders se destaca como um dos maiores exemplos de como construir um anti-herói carismático sem romantizar completamente suas ações.
Criada por Steven Knight, Peaky Blinders estreou em 2013 e rapidamente conquistou o público ao apresentar uma narrativa intensa ambientada na Birmingham do pós-Primeira Guerra Mundial. No centro da história está Tommy Shelby, líder da gangue Peaky Blinders, um personagem tão fascinante quanto perigoso. A série não tenta esconder sua brutalidade, mas constrói um retrato complexo de poder, trauma e ambição.
O contexto histórico como base da narrativa
Um dos grandes diferenciais de Peaky Blinders é sua ambientação histórica. A série se passa logo após a Primeira Guerra Mundial, um período marcado por crises econômicas, instabilidade política e profundas transformações sociais. Esse contexto não serve apenas como pano de fundo, mas influencia diretamente as ações e motivações dos personagens.
Tommy Shelby é um veterano de guerra, assim como muitos membros da gangue. O trauma do conflito molda seu comportamento frio, calculista e muitas vezes impiedoso. A série utiliza esse passado para explicar, sem justificar, a violência presente na narrativa. A guerra deixou marcas profundas, e a criminalidade surge como uma extensão desse ambiente de caos e sobrevivência.
Tommy Shelby: inteligência, trauma e ambição
Tommy Shelby, interpretado por Cillian Murphy, é o coração da série. Diferente de vilões tradicionais, Tommy é apresentado como um estrategista brilhante, extremamente inteligente e capaz de enxergar vários passos à frente de seus adversários. Seu carisma não vem de atitudes heroicas, mas da forma como controla situações, manipula pessoas e enfrenta ameaças.
Ao mesmo tempo, a série deixa claro que Tommy é profundamente atormentado. Pesadelos, crises de ansiedade e um constante sentimento de vazio acompanham o personagem ao longo de todas as temporadas. Esse equilíbrio entre força e fragilidade torna Tommy um anti-herói complexo, que desperta empatia mesmo quando suas ações são moralmente condenáveis.
A família Shelby como núcleo de poder
Diferente de muitas séries focadas apenas em um protagonista, Peaky Blinders constrói sua narrativa a partir da dinâmica familiar. A família Shelby é tanto uma força quanto uma fonte constante de conflito. Arthur, Polly, Ada e os demais membros desempenham papéis fundamentais na ascensão e nos problemas do império criminoso.
Arthur Shelby representa o lado mais instável da violência. Impulsivo e emocionalmente frágil, ele funciona como um contraste direto com o controle frio de Tommy. Polly Gray, por sua vez, é a consciência estratégica da família, equilibrando tradição, intuição e liderança feminina em um ambiente dominado por homens.
Essa estrutura familiar reforça a ideia de que o poder não é individual, mas construído coletivamente — e frequentemente corroído por disputas internas.
O charme do anti-herói e o risco da romantização
Um dos debates mais recorrentes sobre Peaky Blinders envolve a romantização do crime. A estética elegante, os figurinos marcantes e a trilha sonora moderna contribuem para criar uma imagem sedutora da gangue. No entanto, a série constantemente lembra o espectador do custo dessa vida.
Mortes brutais, perdas familiares e destruição emocional acompanham cada avanço de poder. Tommy Shelby não é recompensado com paz ou felicidade; quanto mais ele sobe, mais isolado se torna. Essa abordagem evita que a narrativa transforme o crime em algo desejável, mostrando que o carisma do anti-herói não elimina as consequências de suas escolhas.
Violência como linguagem narrativa
Em Peaky Blinders, a violência não é gratuita. Cada confronto, execução ou ameaça tem peso narrativo. A série utiliza a violência como uma linguagem que comunica poder, medo e domínio territorial. Ao mesmo tempo, evita exageros gráficos constantes, optando por cenas rápidas, impactantes e emocionalmente carregadas.
Essa escolha reforça o tom sério da narrativa e impede que a violência se torne banal. O espectador é constantemente lembrado de que aquele mundo é brutal, imprevisível e perigoso para todos os envolvidos.
Política, classe social e criminalidade
Outro aspecto essencial da série é sua abordagem política. Peaky Blinders explora as relações entre criminalidade, poder institucional e luta de classes. Tommy Shelby não enfrenta apenas gangues rivais, mas também políticos, empresários e representantes do Estado.
A série mostra como o crime organizado se infiltra em estruturas oficiais e como o poder econômico muitas vezes caminha lado a lado com a corrupção. Essa crítica social amplia o escopo da narrativa, transformando a história da gangue em um retrato mais amplo das desigualdades e disputas de poder da época.
Estética, trilha sonora e identidade visual
Visualmente, Peaky Blinders é uma das séries mais marcantes da televisão moderna. A fotografia escura, os enquadramentos estilizados e o uso de câmera lenta em momentos estratégicos ajudam a construir uma identidade única. A trilha sonora, composta majoritariamente por músicas contemporâneas, cria um contraste interessante com o período histórico.
Essa mistura entre passado e presente reforça a atemporalidade da narrativa. Embora ambientada no início do século XX, a série dialoga diretamente com questões modernas como ambição, poder, trauma e identidade.
A evolução do anti-herói ao longo das temporadas
Ao longo das temporadas, Tommy Shelby passa por transformações significativas. O personagem se torna mais poderoso, mas também mais solitário. Suas relações pessoais se deterioram, e a linha entre estratégia e obsessão se torna cada vez mais tênue.
Essa evolução evita que o personagem fique estagnado. O anti-herói não é apenas repetido, mas constantemente reconstruído, mostrando como o poder cobra um preço psicológico elevado.
O impacto cultural de Peaky Blinders
O impacto de Peaky Blinders vai além da televisão. A série influenciou moda, comportamento e estética, tornando-se um fenômeno cultural. No entanto, seu verdadeiro legado está na forma como contribuiu para consolidar o anti-herói como figura central da narrativa contemporânea.
Ao apresentar um protagonista complexo, cheio de falhas e contradições, a série reforça a ideia de que boas histórias não precisam de personagens moralmente perfeitos, mas de personagens humanos.
Conclusão: o anti-herói como espelho da sociedade
Peaky Blinders utiliza o carisma de Tommy Shelby para atrair o público, mas nunca permite que ele seja visto como um herói tradicional. A série mostra que o fascínio pelo anti-herói revela muito mais sobre quem assiste do que sobre quem é retratado.
Ao explorar temas como trauma, poder, família e ambição, Peaky Blinders se consolida como uma das narrativas mais impactantes da televisão moderna, provando que o anti-herói não é apenas uma tendência, mas um reflexo direto das complexidades da sociedade contemporânea.
gustavo.santos
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